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sábado, 3 de novembro de 2012

Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade

Maria Isabel Picão Caldeira nasceu a 1 de Fevereiro de 1889, no Monte do Torrão, em Sta. Eulália, tendo recebido o Baptismo a 3 de Março do mesmo ano. Seus pais, João Miguel Caldeira e Maria Francisca da Silva Picão, eram lavradores abastados e deram-lhe uma educação esmerada, consentindo que frequentasse a Escola de Belas Artes, em Lisboa. Casou em 1912 com João Pires Carneiro, também lavrador. Mas após alguns anos de felicidade conjugal, o marido contraiu uma doença grave e morreu a 17 de Junho de 1922. 

Estando viúva e sem filhos, Maria Isabel dedicou-se ao apostolado. Contudo, não se sentia completada e decidiu em 1934 entrar nas Irmãs Dominicanas Contemplativas, em Azurara, onde permaneceu apenas sete meses por falta de saúde. Em 1936, sabendo Arcebispo de Évora do seu regresso da clausura, convidou-a a tomar conta da Casa de Retiros, em Elvas. Neste espaço iniciou uma grande acção apostólica ao serviço dos pobres e gastando, para isso, os seus próprios bens. 

Em 1939 funda finalmente a Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, que foi aprovada pelo Papa Pio XII a 5 de Julho de 1955. Nesse mesmo ano, a 20 de Dezembro, a Congregação era erecta canonicamente e Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade faz a sua Profissão Perpétua. 

Morreu a 3 de Julho de 1962, em Elvas, depois de uma vida toda voltada para os outros. De rica fez-se pobre para privilegiar os pobres. Estes eram a sua grande paixão e a razão de ser da sua Obra. Com um coração grande, que parecia querer abarcar tudo e todos, arriscou os bens e a vida. Sofreu a doença, as contrariedades, a solidão, a calúnia e a incompreensão. No meio de tantas provações, manteve-se fiel àquilo que julgava ser a vontade de Deus. 

Foi sepultada na sua terra natal, em jazigo de família. Os seus restos mortais foram transladados para a Casa Mãe da Congregação, em Elvas, a 20 de Dezembro de 1980. 

A Causa da sua Canonização foi introduzida em 1998.


Isabel Maria Picão



            Nascida em Badajoz em 1865, Isabel Maria Aquilina Portocalesy de Saavedra y Campos era filha de D. Fernando Aquilino Portocalesy y Luis e de Ana Maria de Campos e Saavedra e natural de Badajoz. Casou-se a 18 de Setembro de 1880, na freguesia de Sto. Ildefonso em Elvas, com David José do Carmo de Bastos Picão, sobrinho-neto do já citado Cláudio José de Bastos Picão, e filho de Amaro José de Bastos Picão, lavrador e proprietário do monte “Torre de Siqueira”, e de sua mulher Mariana do Carmo Mendes Afonso Martins.
            Não era uma senhora muito bonita (as sua feições podem ser conferidas no retrato a óleo que ainda hoje se mantém no edifício que outrora foi a sua casa) e, talvez por isso, se contasse que o marido David Picão tinha uma(s) amante(s). É por causa desse mesmo edifício que Isabel Maria Picão ficou estimada pelos elvenses e odiada pela família.
            Antigamente, a Câmara Municipal de Elvas situava-se na praça da República, onde os Paços do Concelho estiveram durante quatro séculos. Este edifício foi concluído em 1538 e quem o projectou foi Francisco de Arruda, o mesmo mestre e autor da obra do Aqueduto e da fábrica da Sé. Aliás, tal era a beleza do imóvel que em 1729, aquando da cerimónia da troca de princesas no Caia, esteve nele alojado a Família Real. Contudo, desde os fins do séc. XIX, pairou no espírito dos indivíduos que geriam os negócios municipais o desejo de transferirem os Paços do Concelho para o Palacete da rua dos Pessanhas, propriedade do lavrador David Picão, por haver nas suas 86 salas lugar para todas as repartições municipais.
            Com esse fim, já em 9 de Junho de 1891 se haviam reunido nos Paços do Concelho alguns dos 40 maiores contribuintes da contribuição predial, mas maioria votou para que se realizassem antes obras no prédio da Praça.
            Só umas dezenas de anos mais tarde a ideia se firmou em bases sólidas e em sessão de 2 de Fevereiro de 1935 resolveu-se comprar o edifício.
            Como, entretanto, David Picão tinha morrido, a sua viúva Isabel Maria Picão jurou que nada deixaria em testamento à família daquele que lhe tinha sido toda a vida infiel.
            Assim, a 8 de Novembro do mesmo ano foi assinada a escritura de compra em condições altamente vantajosas para a Câmara. A venda foi feita da seguinte forma: 600 contos pela casa e 190 pelo mobiliário, valendo tanto um como o outro muitíssimo mais, e tendo sido o pagamento facilitado ao máximo. 100 mil escudos no acto da escritura e 50 até 31 de Dezembro desse ano, o restante em prestações semestrais de 18 contos sem vencimento de juros, mas cessando por morte da proprietária.
            Como Isabel Maria Picão (ou a tia Maria espanhola, como era conhecida pela família) morreu a 18 de Dezembro de 1944, nessa data a Câmara entrou na posse de todos o edifício, bem como da magnífica Herdade D. João, que a mesma senhora legou à cidade.
            Para maior raiva da família, a rua da Câmara chama-se hoje Isabel Maria Picão.

Cláudio José de Bastos Picão

Filho de Amaro José de Bastos Picão, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Capitão de Ordenanças, Familiar do Santo Ofício e lavrador, e de sua mulher Francisca Faustina de Lima, Cláudio José de Bastos Picão foi um lavrador e proprietário no concelho de Elvas. Nasceu em 1782 em Sta. Eulália e foi nessa terra que manteve a sua lavoura, no monte “Torre de Siqueira”. Casou com Joaquina Vicência Cordeiro Vinagre. 
Por decreto de 27 de Agosto de 1807 foi nomeado Capitão de Ordenanças de S. Vicente, tal como vem disposto na relação dos oficiais de Ordenanças:


“Cláudio José de Bastos Picão, capitão da 11ª Companhia de S. Vicente, 47 anos de idade. Anos de serviço e posto de oficial 22 anos e 4 meses. Data em que foi promovido a capitão que actualmente tem, e se foi por decreto, resolução de consulta, ou nomeação do general. Por Decreto do Conselho de Guerra de 27 de Agosto de 1807. Se tem saúde e robustez suficiente para continuar no desempenho dos deveres do seu posto. Tem robustez, porém muita falta de vista que o proíbe muitas vezes para o desempenho do serviço. Se tem bens para poder continuar a exercer o posto que ocupa sem vexar os povos. Tem bens suficientes para poder exercer o posto que ocupa sem vexar os povos. (…)”


Este lavrador e Capitão de Ordenanças Cláudio José de Bastos Picão cegou por completo, pelo que, não podendo administrar devidamente, a sua casa agrícola deu em decadência. Em tal conjuntura dizia para a família: “Sobrinhos! Quem o tiver segure-o, que eu tive-o e deixei-o fugir. Antigamente era o Senhor Capitão Cláudio, agora nem Cláudio já sou.”


Era um homem de espírito. Dele se conta que tendo comido chícharos teve uma indigestão, pelo que exclamou que vergonha se eu morro, pois hão-de dizer: “Morreu o Capitão Cláudio duma indigestão de chícharos, ainda se fosse de lombo!” 


Existem ainda outro episódio divertido e revelador do seu carácter. Naquele tempo ainda não havia recrutamento militar obrigatório. Quando era preciso recrutar soldados, surgia nas aldeias, aos domingos, uma força de infantaria que, cercando a igreja à hora da missa, ia prendendo todos os homens solteiros, rejeitando os casados. Passavam depois revista às casas, pelo que os solteiros metiam-se na cama com as irmãs, fingindo que eram casados para não os levarem.


Numa dessas ocasiões, levaram também um pastor do lavrador Cláudio José de Bastos Picão. Este era então vereador da Câmara Municipal de Elvas. Na primeira sessão da Câmara apresentou-se vestido de pastor, com safões e pelica. Grande pasmo dos vereadores, que inquiriram do caso, explicando ele que lhe tinham levado o seu pastor para soldado e por isso tinha que ir ele guardar o gado. Surtiu efeito a ironia, o estratagema, pois o presidente da Câmara foi expor o caso ao general, que mandou logo soltar o pastor.

Os apontamentos sobre a biografia militar existem no Arquivo Histórico Militar e foram copiados pelo seu sobrinho-neto Laureano António Picão Sardinha.